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OPINIÃO: Inovação precisa transbordar sua bolha para chegar às pessoas

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Há pessoas que quando começam a falar, o melhor que temos a fazer é calar e prestar atenção. Sinto-me assim sempre que ouço uma manifestação do professor Luís da Cunha Lamb, hoje secretário de Inovação, Ciência e Tecnologia. Dono de um currículo invejável e com palavras precisas sobre inteligência artificial, machine learning e outras coisas deste mundo digital que precisamos conhecer para enfrentar o futuro que já está, Lamb lança alertas que precisam ser ouvidos.

Na última semana participei de uma prestação de contas do .InovaRS, programa da SICT que estimula e coordena a inovação em oito regiões gaúchas. Sempre que vou nos eventos é tanta gente, tanta coisa nova surgindo, tanta possibilidade de mudar a vida das pessoas, mas… Pois é no mas que mora o problema. Estamos preparando a sociedade de forma a adequada para as mudanças que já estão chegando? Ou o debate tem estado restrito a nós mesmos?

Lamb abordou o assunto ao lembrar que Porto Alegre havia parado naquela semana por uma manifestação de rodoviários contra um projeto que flexibiliza a presença dos cobradores nos ônibus. De acordo com trabalho da UFRJ, a função de cobrador será a segunda com o maior número de profissionais afetados pela automação e IA até 2040 (a primeira é operador de caixa) no Brasil. O que o professor deixou claro é que a sociedade não está entendendo a transformação que virá. De alguma forma, segue presa ao passado com o qual se acostumou.

Professor Lamb fala em evento em Porto Alegre

É inegável que os avanços tecnológicos irão afetar as nossas vidas. Já afetaram as das ascensoristas ou dos bancários (que ainda serão mais afetados), por exemplo. E irão afetar, sobretudo, a vida e os empregos das pessoas mais pobres. As vagas para quem tem baixa qualificação serão mais escassas. O que estamos fazendo para amenizar estes efeitos? Que programa, por exemplo, a gestão municipal propôs para qualificar cobradores para este novo mundo? E os profissionais estão atentos às mudanças e buscando oportunidades? A resposta é negativa para as duas perguntas.

Por isto insisto que o mundo da inovação precisa cada vez mais falar para fora. Recentemente houve em Porto Alegre uma prestação de contas do Pacto Alegre. Nos horários de maior movimento estavam lá umas 200 pessoas, muitas delas, as mesmas que estiveram no Tecnopuc para falar do .InovaRS dias depois. A inovação não pode viver numa bolha.

Saí há menos de dois meses do trabalho em meios de comunicação. Lá dentro há barreira de entendimento entre os próprios jornalistas sobre o que está ocorrendo. Acham engraçados os termos importados e custam a ir atrás do que está ocorrendo e, principalmente, das mudanças sociais que virão.

O século 21 será um século de mudanças profundas e, cada vez mais, velozes. O jornalista Merval Pereira publicou neste domingo em sua coluna um pensamento do psicanalista capixaba Joel Birman, que traduz bem a tensão que virá se o porvir seguir desconhecido. Fala em uma “angústia psíquica sempre que se entra em um processo rápido de modernização do espaço social”. E o que vivemos aqui na questão dos cobradores?. E prossegue: “essas mudanças provocam um grande mal-estar pela desestruturação dos valores tradicionais e o surgimento de novos valores”.

Vamos correr para integrar todas as camadas da sociedade na mudança. Ela virá. Aqueles que não forem incluídos irão reagir. Aos inovadores, cabe achar as respostas sobre o papel de cada ser humano neste novo mundo de IA e automação.

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