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Histórico de equívocos irá asfixiar o carnaval da Cidade Baixa

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Porta arrombada, tranca de ferro. O sábio ditado ajuda a refletir bem o desarranjo que se permitiu nos últimos anos no carnaval de blocos da Cidade Baixa, o mais importante de Porto Alegre, e como a decisão do Poder Público para 2020 joga a tradição num perigoso período de decadência.

Neste ano, a passagem de blocos pelo local está limitada a dois dias – o sábado e a terça-feira de carnaval – e com circuito único. Não tem mais Maria do Bairro na Sofia Veloso; Galo de Porto pela Lima e Silva, ou Banda DK na República. As manifestações saem (mais uma vez) dos seus territórios tradicionais e são levadas para outro circuito. No caso da CB, para um desfile entre a Praça Garibaldi e a Orla do Guaíba.

Um dos responsáveis pelo bloco Maria do Bairro, o cineasta Zeca Brito faz uma análise fundamental de como o crescimento da festa também contribuiu para a crise que foi gerada na relação com Brigada Militar, Ministério Público e moradores. Sobre isto, aliás, Brito entende que a reação negativa de uma parcela destes está muito mais ligada a problemas no bairro ao longo do ano do que aos blocos.

Ventilador, que não tinha relação com os blocos, foi a gota d’água na relação do bairro com o carnaval / Foto: João Mattos

“O que estamos vivendo é fruto do excesso de comercialização nos anos anteriores”, avalia Brito. Ele lembra do uso de um superventilador instalado por uma marca de cerveja na Rua da República e que ficava tocando música eletrônica todo o dia (foi em 2018). O fato é que toda conta do incômodo do equipamento que bloqueou a rua o ano inteiro caiu nos ombros dos blocos, mas era, de fato, da permissividade na comercialização, trazendo para o ambiente dos blocos algo que não tinha relação com a festa.

Outra crítica é o surgimento de empresas, no lugar de blocos. No lugar do agrupamento de pessoas reunidas para a promoção da cultura e diversão, como foi o caso de quando o Maria do Bairro nasceu pequeno, na Sofia Veloso, o que surgiram foram CNPJs para ir atrás de patrocínios que, como lembra Brito, padronizaram o carnaval.

“A culpa não é nem deste momento histórico. O crescimento do carnaval se direcionou para o surgimento de empresas de carnaval e não de blocos. A festa tem no patrocinador, com uma única cor, uma única chancela, uma padronização estética, o único caminho possível para se ocupar visualmente a rua”, destaca ao lamentar que assim se perca também a diversidade da festa.

OPINIÃO

Cheia de boa vontade, em um momento, a Prefeitura Municipal tentou organizar o carnaval que nasceu espontaneamente na Cidade Baixa e o desorganizou. Eu era chefe de Reportagem da Rádio Gaúcha quando o Maria do Bairro fazia seus primeiros carnavais. Escalei o repórter Léo Saballa Jr, hoje na RBSTV, para acompanhar. Voltou impressionado com o convívio de vizinhança que se criou.

Com o tempo, no entanto, a festa cresceu demais. Em 2016, por exemplo, havia bloco quase toda semana desde dezembro. No ano seguinte, três blocos desfilaram no mesmo dia, transformando o bairro numa muvuca. Como folião, frequento o Galo de Porto. Vou, compro minha camiseta, faço meu desfile, e retorno para casa. Só que nem todos que frequentam os espaços onde os blocos estão são foliões.

O surgimento de circuitos alternativos, como a Orla do Guaíba e a Aureliano (que já recebeu blocos) é interessante. Não se pode, no entanto, matar raízes. Casos como o do Maria do Bairro, DK, Rua do Perdão, deveriam ser revistos para os próximos carnavais. No mais importante carnaval do país, a Banda de Ipanema jamais deixará o bairro.

1 COMENTÁRIO

  1. A vivência do carnaval de rua é a marca da folia pelo país inteiro. Ocupar espaços públicos carregando multidões è a cara do carnaval do Brasil. Salvador, Recife, Rio, São Paulo, Florianópolis, Natal, Fortaleza e tantas outras capitais exibem orgulhosas duas ruas tomadas de alegria e festa. Mas a européia Porto Alegre se encolhe para atender as queixas de um grupo de pessoas que muitas vezes nem em casa está pois passa seu descanso em outros locais. Talvez se colocássemos a OSPA para tocar das 16 as 18 horas na praça Garibaldi estaríamos fazendo o nosso verdadeiro Carnaval. O que um dia foi pensado como o maior Carnaval de rua do Brasil pelo tempo de participação dos blocos se transformou em um arremedo envergonhado.

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