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Impulsionado emergencialmente pelo Coronavírus, qual é o futuro do home office de maneira permanente?

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Foto: Unsplash

Já é certo que o avanço dos casos do novo Coronavírus afetou a vida de todos. As rotinas de trabalho não ficaram ilesas. Para boa parte dos trabalhadores, o teletrabalho, ou home office, foi a alternativa para não parar completamente. Vista por empregadores como um grande desafio, trabalhar de casa está se colocando como única opção para diversas funções. 

No Brasil, pesquisa da empresa de recrutamento e seleção Robert Half mostrou que entre 2015 e 2018 o home office cresceu 47% no país. No mesmo período, apenas a China, com 54%, e Singapura, 50%, ficaram acima do Brasil. Os dados da consultoria SAP referentes a 2018 (a pesquisa mais recente) mostraram que 45% das empresas pesquisadas já adotavam o teletrabalho como prática, enquanto 15% estudavam a possibilidade. O estudo teve apoio da Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades (Sobratt).

Fato é que o cenário do home office é crescente e exige uma série de cuidados de donos de empresas, chefes e empregados. O consultor jurídico e advogado trabalhista Alexandre Medeiros Bastos aponta, por exemplo, a necessidade de se ter um local próprio para o trabalho, mesmo que em casa. Para ele, essa preocupação deve ser das duas partes, de quem contrata e de quem é contratado.

“A pessoa não pode estar trabalhando em casa num cantinho completamente desconfortável. As empresas têm que se preocupar com várias questões de ergonomia, de saúde do trabalhador. Todas as normas do Ministério do Trabalho que estão adotadas internamente nas empresas também valem para o teletrabalho”, comenta Bastos. 

O teletrabalho, como é oficialmente conhecido, passou a integrar a legislação trabalhista brasileira através da Reforma Trabalhista, em 2017. Bastos, que atua como advogado na Atílio Dengo Advogados, acredita que a construção de políticas de recursos humanos possam abarcar os cuidados necessários para a execução de trabalhos à distância. Isso valeria para situações permanentes ou temporárias. 

Cássio Mattos é diretor da RH Mattos, empresa que presta serviços de recursos humanos para outras empresas, como a contratação de novos funcionários. Para ele, o cenário do home office está presente há pelo menos 15 anos no mercado e está em uma crescente, sendo praticado por empresas principalmente para a redução de custos de operação.

Ele cita como exemplo o fato de empresas de São Paulo que tinham escritório em Porto Alegre até a década passada e hoje não possuem mais. “Uma das formas mais eficazes de reduzir custos é terminar com aquela estrutura de aluguel, cafezinho, telefone”, pontua. O teletrabalho entra como alternativa, além dos espaços de coworking. 

Última pesquisa da SAP, referente a 2018, mostrou que a grande maioria das empresas que adotam home office estão no Sudeste (Imagem: SAP)


Mattos observa que a situação imposta pelo Coronavírus é atípica e emergencial. As empresas que já atuam com home office, pontua ele, tendem a já ter políticas estruturadas para a prática, mas as demais precisam se adaptar. A interrogação maior fica sobre as empresas que não tinham essa prática cotidiana.

“Como que esse chefe lidera a equipe sem criar um estresse e sem perder produtividade? Qual é a atenção da própria equipe para poder garantir a produtividade? Hoje em dia já evoluímos muito em termos de ferramentas e comunicação”, destaca Mattos como um dos desafios que se colocam na gerência do trabalho não-presencial.

O designer Leonardo Francisco, 23 anos, atua no planejamento estratégico em comunicação digital e trabalhar de casa já fazia parte da rotina mesmo antes do Coronavírus. Um espaço foi organizado na sua casa para que servisse como ambiente de trabalho propriamente, com escrivaninha e cadeira de escritório. As tarefas diárias estão em um planner, uma espécie de agenda, e no Trello, sistema de controle de tarefas que pode ser compartilhado com mais pessoas – no caso dele, isso ocorre com os colegas. 

Leonardo comenta que a parte mais complicada é definir um horário de trabalho e mantê-lo. “Como eu fico em casa, costumo dividir as tarefas do trabalho com as domésticas. Então acabo trabalhando meio que o tempo inteiro – o que não é muito legal, mas funciono bem assim”, pontua. 

O foco no trabalho estando em casa também é um desafio para a assistente de redação Vitorya Paulo, 21. Ela começou a trabalhar no sistema home office nesta semana, em função do Coronavírus. “Estar em casa pode ser um facilitador para o trabalho, mas é preciso ter bem determinado quais são as tarefas do dia”, frisa. Ela ainda destaca que, no seu caso, tudo o que poderia fazer no escritório também é feito em casa e elenca como ponto desfavorável a falta de trocas de ideias mais dinâmicas com os colegas.

Uma opção crescente, mas não para todos

As fontes citadas acima são unânimes ao afirmarem que o home office é uma opção válida para determinadas funções. Ou seja, é preciso que algum aporte tecnológico permita a execução das tarefas. Em geral, com internet e um computador a maioria dos casos são resolvidos. 

Uma das áreas na qual é mais possível executar as tarefas de casa é a da comunicação, incluindo jornalismo, publicidade, design e relações públicas. Na área comercial a modalidade de trabalho também cresce. Leonardo Francisco acredita que por mais que cresça o home office, ele é um privilégio para quem precisa de poucos equipamentos para conseguir realizar as tarefas. 

O empresário Cássio Mattos sente o crescimento das vagas de home office no seu trabalho de recrutamento e seleção de funcionários. “A cada ano tem aumentado o número de vagas que já preveem o home office como natural para a vaga, seja na casa da pessoa ou num coworking. Aumentou pela necessidade de redução de custos, porque outros fizeram e deu certo e porque a tecnologia está cada vez melhor, facilitando as comunicações”.

Esse crescimento coloca em alerta empregadores e empregados quanto aos contratos e aos termos fixados. O advogado Alexandre Bastos frisa que é preciso prever todas as condições, possibilidades e insumos necessários para o trabalho em home office, evitando possíveis ações judiciais posteriores. “O notebook é fornecido pela empresa ou vai ser do próprio empregado? Quem paga a internet, a energia elétrica? Precisa estar contratualmente pré-definido. Isso evita que uma das partes diga que teve uma surpresa e que está sendo onerada”, pondera.

O cenário imposto pelo avanço do Coronavírus está testando também essas relações de trabalho e colocando o teletrabalho na discussão. Embora parte muito significativa das funções não permitam um trabalho de casa, há uma vastidão de trabalhos que, por sua natureza, podem ser executados da sala de casa. A condição atual confronta os empresários à possibilidade do home office: podem não ver como possibilidade viável, fazer e ver que dá certo ou implementar porque já era uma possibilidade estudada.

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